Texto da tese de doutorado "S. Gregório de Nissa. Criação e Tempo.", de Maria Cândida da Costa Reis Monteiro Pacheco
A mundividência de S. Gregório de Nissa equaciona-se numa bipolaridade, pois tanto a sua personalidade como o seu pensamento se definem em função dum universo cristão e dum universo grego, dum nível de fé e de razão. Se é certo que esses planos se interpenetram, dando-nos a medida dum pensador fecundo que, manipulando habilmente as suas fontes, recolhe as riquezas, sem se deixar dominar por elas, não se confundem, no entanto. A fé não entrava o impulso da investigação, mas, pelo contrário, abrindo campos até aí inacessíveis, amplia o próprio universo intelectual. Por isso não se contrapõe à razão, mas prolonga-a e pressupõe-na. Situando-se numa perspectiva característica da filosofia do seu tempo, para S. Gregório, o fim essencial do homem será a procura da verdade e da virtude, que se identifica com a busca de Deus. Toda a instabilidade e consequente movimento do mundo criado irracional explica-se por uma procura cega de totalização dum ser ontologicamente insuficiente. Esse mundo procura, dinamicamente, um completamento. Inserindo-se, pela sua dupla natureza de corpo e espírito, num mundo em mutação contínua, o homem, como ser racional, participa desse mesmo movimento, ultrapassando-o, porém, ao ter consciência da sua busca de ser. Assim se vai realizando num progresso sempre inacabado. A busca da virtude e da verdade é, apenas, a tradução existencial duma insuficiência ontológica, inerente a todo o homem.